sábado, 25 de abril de 2020


Brasil, 25 de abril de 2020

Pandemia de Coronavírus. Quarentena. Milhares de pessoas mortas pelo mundo. Três mil, seiscentas e setenta pessoas mortas no Brasil até agora.

Um presidente acéfalo que apoia o isolamento vertical. O ministro da saúde pulou do barco na semana passada. Há algumas horas, foi a vez do ministro da justiça. E segue a nau à deriva.

Ao telefone, comentei com a minha mãe que cresci ouvindo que “religião, futebol e política não se discute”. Ela, quase se desculpando, me respondeu “foram muitos anos de ditadura. A gente não podia discutir política”. Eu entendo, mãe. 

Em 1991, passei no vestibular para o curso de Letras, naquele antro de maconheiros e de balbúrdia que é a Universidade de São Paulo (USP), segundo o atéquando? presidente do país.  Porém, apesar daquela “Faculdade Comunista", a minha iniciação à política se deu em 1992, quando fui dar aulas de Língua Portuguesa numa escola pública do Estado de São Paulo. Lá, por afinidade, acabei me aproximando das professoras de História (Comunista, claro!) e de Educação Artística. Era a época do “Fora Fleury!!!”. Muitas greves, né amores!

Enfim, o “não se discute futebol, religião e política” nos trouxe até aqui. O projeto de desmonte da educação nos trouxe até aqui. E o que tá feito, tá feito. Sigamos.

Na minha família, na família que construímos todos os dias, nós quatro já gritamos “ELE NÃO!”, “MARIELE, PRESENTE!”, “FORA BOLSONARO!”, “LULA LIVRE” centenas de vezes. Nossas filhas nos viram chorar no golpe que derrubou a Dilma (sim, foi golpe!) e quando o povo elegeu para presidente esse homem que idolatra torturador da ditadura.

Nós lhes explicamos a necessidade do feminismo! Nós lhes apresentamos Liniker e Linn da Quebrada. 

Hoje, dei uma panela pra cada uma, expliquei-lhes quem é Moro e o que ele fez no verão passado, que ele não é o mocinho, que ele é apenas o canalha que estudou.

Não sei o que conseguem absorver de tudo isso, mas eu só quero que, quando chegarem a minha idade, lembrem-se de seus pais como aqueles doidões de esquerda que discutiam política, que berravam da janela “FORA MILÍCIA!”, muitas vezes sozinhos entre milhares de janelas caladas.

Engolimos o choro quase todos os dias e vamos em frente. Por elas. Porque, hoje, podemos discutir SIM futebol, religião, política e o caralho a quatro! Graças a Deus.




 



quinta-feira, 16 de abril de 2020

Vejam bem!


Estou lendo “Concerto para corpo e alma”, do Rubem Alves.

Página 75:

“[Willian] Blake diz que ‘a árvore que um tolo vê não é a mesma árvore que um sábio vê’. Bernardo Soares explica, dizendo que isso é assim porque ‘nós só vemos o que nós somos’.”

Já avancei algumas páginas na leitura, mas, na verdade, fiquei presa nas palavras acima: NÓS SÓ VEMOS O QUE NÓS SOMOS.

Fim. Veja você.
 



quarta-feira, 15 de abril de 2020

Cotidiano - Ajudae, Chico!














Dia 29 da quarentena. Sigamos.

E, agora, a segunda e a quarta-feira, por exemplo, já não tem muita diferença, a não ser pelo fato de que quarta-feira é dia do caminhão da carne parar aqui na rua e eu vou às compras. 

Então, tirando as quartas e os domingo, que é dia de fazer vídeo chamada com a família, o resto não faz muita diferença.

Tanto faz. Não tem mais um “amanhã, tenho dentista” ou “hoje, vou precisar usar meu horário de almoço e fazer um corre pra achar aquele esmalte cor fúcsia da Tailândia que prometi pra minha filha”. Não tem mais.

O Chico podia fazer uma nova versão da música “Cotidiano”, versão Covid-19:

“Todo dia eu só penso em poder sair
Meio-dia eu só penso em dizer não
Depois penso no diabo do Jair
E me calo com a boca de feijão”

Ae, Chico, me socorre! Num tô bem, não.

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